Pesquisa usa cogumelos para integrar biocombustíveis e alimentação

Mais do que um alimento saudável que colabora para a energia do nosso corpo, agora os cogumelos também poderão servir para a geração de energia renovável. Cultivado há centenas de anos ao redor do mundo, desde a década de 50 o tradicional alimento da culinária oriental faz parte do cardápio da mesa dos brasileiros, não só pelo sabor, mas, principalmente, por suas propriedades nutricionais que trazem benefícios à saúde. Existem cerca de 4,5 mil espécies de cogumelos comestíveis no mundo e os mais conhecidos no Brasil são shiitake (Lentinula edodes), shimeji (Lyophyllum shimeji), cogumelo do sol (Agaricus blazei) e champignon de Paris (Agaricus bisphorus), que têm a maior produção e consumo em São Paulo.

Em razão da importância econômica e da funcionalidade desse alimento, pesquisadores da Embrapa Agroenergia, em parceria com outras Unidades da Empresa e instituições externas, apostam na produção de cogumelos para agregar valor à cadeia do biodiesel aproveitando os resíduos gerados nas usinas.

Os estudos se concentram na redução ou eliminação dos compostos tóxicos dos subprodutos da extração do óleo de pinhão-manso e algodão, chamados de tortas ou farelos. Esses materiais gerados correspondem a cerca de 70% do peso do grão, a parte sólida, e o restante é o óleo. Dar um destino a esses resíduos é fundamental para tornar a cadeia produtiva dessas oleaginosas sustentáveis, ampliando ainda mais as fontes de renda para o agricultor familiar associado às indústrias do biodiesel. Atualmente, devido à toxicidade, as tortas de algodão podem ser utilizadas apenas em pequena quantidade na nutrição de animais ruminantes, no caso da torta de pinhão-manso, apenas como adubo. “Com a destoxificação desses produtos será possível ampliar o mercado das tortas, permitindo que ela seja, inclusive, fornecida a animais monogástricos, como suínos e aves”, salienta a pesquisadora da Embrapa Agroenergia Simone Mendonça, líder desse estudo.

O objetivo das pesquisas atuais é promover o crescimento dos cogumelos, utilizando as tortas como meio de cultivo em substituição à serragem, bagaço de cana-de-açúcar, capim-elefante e outros tipos de biomassa atualmente utilizados. Com isso, será possível cultivar os cogumelos e ao mesmo tempo destoxificar as tortas, uma vez que alguns cogumelos, ao crescerem, produzem enzimas capazes de inativar os compostos tóxicos. As tortas, além de destoxificadas, ficarão mais ricas nutricionalmente, pois este cultivo aumenta a digestibilidade das fibras da torta e incrementa o teor de proteínas. Essas ações fazem parte do projeto “Destoxificação de tortas/farelos da cadeia do biodiesel através de compostagem associada ao cultivo de cogumelos”, liderado pela Embrapa Agroenergia, com duração de três anos e com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Por meio dessa estratégia, os cientistas esperam obter quatro produtos: os cogumelos, a torta para mistura à ração animal, o biofertilizante e o resíduo para a produção de etanol de segunda geração (2G). Tanto o resíduo do pinhão-manso quanto o do algodão irão enriquecer os biofertilizantes com proteínas, nitrogênio, fósforo, potássio e microrganismos.

A destoxificação

A Embrapa tem diversas estratégias para retirar ou inativar os ésteres de forbol encontrados na torta do pinhão-manso, que são os compostos químicos que impedem que a cultura se torne viável no mercado do biodiesel. Um dos caminhos é o tratamento biológico. “Nossa proposta é que os resultados agreguem valor à cadeia dos biocombustíveis, da alimentação animal, e também à nossa alimentação”, esclarece a pesquisadora Simone, explicando que a ideia é integrar as cadeias com a ajuda das indústrias e da agricultura familiar. “Vamos dar mais uma alternativa de matéria-prima ao produtor de cogumelo e isso beneficiará outras cadeias”, diz Félix Siqueira, pesquisador da Embrapa Agroenergia. Nos laboratórios, em Brasília, fungos de podridão-branca têm demonstrado bom crescimento em tortas de pinhão-manso cuja cultura ainda está em processo de domesticação. Seu grande potencial produtivo, no entanto, tem motivado diferentes esforços de pesquisa com o objetivo de domesticar a oleaginosa.

O interesse comercial no cultivo de pinhão-manso no Brasil ganhou força a partir do ano de 2006, coincidindo com início do Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel, implantado em dezembro de 2004. A partir de 2010, a Embrapa iniciou um projeto vislumbrando viabilizar a cultura, desde a domesticação até o uso do óleo e da torta, o BRJatropha, com recursos da Agência Brasileira de Inovação (Finep).

“Vale lembrar que o pinhão-manso é uma aposta na produção de biodiesel por ter potencial de produção de óleo até três vezes maior que a soja”, salienta Bruno Laviola, pesquisador da Embrapa Agroenergia e líder do BRJatropha. O centro de pesquisa conta com um Banco Ativo de Germoplasma (BAG), instalado em parceria com a Embrapa Cerrados, no campo experimental em Planaltina (DF), com acessos do País e do exterior. Além disso, há experimentos implantados em várias Unidades da Empresa nas diversas regiões brasileiras e testes em laboratórios.

Uma outra cultura a ser testada é a do algodão, a terceira em importância na produção de biodiesel. O algodão é aproveitado especialmente para vestuário e fibras. Do caroço, é obtido o óleo e o farelo é utilizado na mistura da ração animal. Esse subproduto ainda é um dos gargalos da cultura.

Embora já utilizado na alimentação de animais ruminantes, como bovinos e caprinos, o caroço do algodão também possui um componente tóxico, o gossipol, que limita o uso para esse fim. Simone Mendonça explica que esse elemento pode causar efeitos negativos no crescimento, reprodução e no desempenho dos animais, e é mais tolerado por ruminantes adultos do que por monogástricos, os quais têm dificuldade de digerir dietas com alto teor de fibras. “O que queremos é dar oportunidade de aumentar essa porcentagem. Se conseguirmos tirar essa substância, os produtores de suínos e aves irão agregar a torta de algodão à alimentação animal”, explica a pesquisadora.

Outros produtos

Para produzir o etanol de segunda geração (2G) é necessário efetuar o pré-tratamento da biomassa, a etapa de maior custo na produção do combustível. Nesse caso, a biomassa utilizada na produção do cogumelo poderá ser usada na obtenção do etanol, pois já foi pré-tratada pelas enzimas produzidas pelos cogumelos durante o seu crescimento. “Essa é uma das possibilidades para os nossos trabalhos de pesquisa”, diz Félix.

A equipe vai utilizar dois métodos de pré-tratamento da torta a ser utilizada como substrato para o crescimento dos cogumelos. Primeiramente, será utilizado o sistema axênico, que promove a eliminação prévia de todos os microrganismos da torta. Nesse caso, apenas um fungo é cultivado de forma que se possa avaliar os de melhor desempenho e verificar a presença dos elementos tóxicos no cogumelo e na torta vegetal. Os cogumelos que conseguiram crescer no meio de cultura contendo uma única fonte nutritiva serão levados para compostagem.

As espécies que estão em testes nesse período são provenientes das coleções de cogumelos da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, Embrapa Florestas e Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Serão testadas, ao longo do projeto, cerca de 200 espécies, aumentando a chance de encontrar potenciais cogumelos e selecionar de melhor desempenho na redução de substâncias tóxicas. Por meio de uma parceria com uma empresa de cogumelos comestíveis do Distrito Federal, serão realizados testes para a produção em escala.

Para testar a eficácia da destoxificação das tortas na alimentação animal, a Embrapa conta com a parceria da Universidade Federal de Lavras (Ufla). As tortas destoxificadas serão usadas como um dos ingredientes das misturas alimentares já fornecidas a suínos e aves.

Fonte: Embrapa

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